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Dos pesos que todas nós carregamos | #everydaysexism

26 janeiro 2016



Em 2014 viralizou na internet um texto com 35 ações práticas para homens que querem apoiar o feminismo e, logo na segunda colocação dessa lista, tinha a seguinte dica: 

Dê 50% (ou mais) do suporte emocional em seu relacionamento afetivo e amizades.
Reconheça que mulheres são desproporcionalmente responsáveis pelo trabalho emocional e que ser responsável por isso tira tempo e energia de outras coisas que elas consideram satisfatórias.
Na época que eu li isso pela primeira vez, apesar deu já entender exatamente sobre o que essa questão se tratava, eu não tinha percebido o quão internalizado estava, dentro da minha existência, a responsabilidade que eu sinto ter pelas minhas relações amorosas.

Desde que cresci, eu fui educada para conquistar um homem, fui ensinada a "prender" um homem e a manter esse casamento durante o resto da minha vida. Caso alguma dessas coisas falhassem e eu, por exemplo, me divorciasse, a culpa era minha de não ter aprendido direito como proceder. 

Esse quadro geral não é novidade para ninguém, mas só ontem, depois de uma discussão com o meu namorado de longa data, foi que alguns botões se acionaram no meu inconsciente e eu de fato compreendi a extensão desse quadro na minha vida prática.

#1 A gente precisa saber o momento certo de brigar
Se seu parceiro fez algo que te magoou ou algo que você considera importante ser debatido, você não pode simplesmente discutir na hora em que aquilo aconteceu! Primeiro você precisa pesar: vocês já tiveram muitas discussões recentemente? Ele está passando por uma fase estressante na vida profissional/pessoal dele em que talvez uma discussão no relacionamento não seja o melhor cenário no momento? 
Se a resposta para uma dessas perguntas for sim, então o que você precisa fazer é: deixar essa mágoa de lado, trabalhar a relação de vocês para que ela melhore e, quando vocês estiverem bem e apaixonados novamente, puxar uma conversa leve e agradável (ou o máximo possível) sobre como aquela atitude passada te incomodou e você não gostaria que se repetisse. Já que agora vocês estão agora numa fase boa da relação, a discussão vai causar menos ruídos e menos danos colaterais.

#2 A gente precisa escolher as batalhas certas para lutar
Para além do momento certo de brigar, também é preciso pesar bem quais são as brigas que realmente valem a pena. Se você for brigar toda vez que ele fizer algo que você não gosta, a relação vai ficar desgastada rapidamente. Ele vai achar o namoro chato e possivelmente vai se desencantar ou até mesmo parar de gostar de você! Logo, vamos aprender a relevar mais, ok?

#3 A gente precisa passar essa sabedoria adiante para as nossas amigas
Imagina esse cenário: sua amiga acaba de brigar com o namorado e vem desabafar com você pedindo conselhos. Antes de dizer o que você pensa sobre o acontecido, é sempre importante se certificar primeiro de que ela estava cumprindo os preceitos citados anteriormente. "Amiga, mas ele não estava passando por um momento mega difícil na família dele?"; "Você não poderia ter esperado pra ter essa conversa outra hora?"; "Você não tem discutido demais com ele ultimamente?"; "Nenhum cara aguenta isso, daqui a pouco ele cansa mesmo!"; "Melhor você dar uma maneirada e agradar ele um pouquinho, tentar reconquistá-lo, aumentar a paixão... Depois, quando vocês tiverem melhor, você tenta conversar de novo!".

Vejam bem, eu não acho necessariamente todos esses pensamentos "errados". Esse cuidado é bom pra a manutenção de qualquer relação, mas o problema aqui é que eles são ensinados apenas para as mulheres! É inteiramente nossa a responsabilidade e a constante preocupação com o relacionamento. É nossa a responsabilidade de reconquistar, de aliviar, de agradar, de medir as palavras, de escolher cuidadosamente os passos a serem dados.

Se seu namorado ficar irritado com você: ele vai falar! Na hora que você fizer algo que o desagradou, pode ter certeza que você vai ficar sabendo. Não vai passar pela cabeça dele que "talvez agora não seja o momento mais adequado na nossa relação para iniciarmos uma nova briga" ou que "talvez seja melhor termos algumas saídas românticas antes de termos essa discussão, só pra eu ter mais segurança de que ela não vai se irritar e querer acabar com essa relação". E muito menos "eu preciso ter mais cuidado com as coisas que me deixam irritado, porque daqui a pouco ela vai me achar muito pé no saco e vai dar o fora".

Porque, no final, tudo se resume ao medo de sermos deixados sozinhas. É muito fácil apontarmos os dedos e criticarmos nossas amigas quando elas não conseguem terminar com aquele namorado babaca, sendo que a vida inteira nos foi atribuída essa missão de "manter" um relacionamento. Quando esse relacionamento termina, É NOSSO o fracasso. Mesmo depois de tudo o que nos ensinaram, de todos os conselhos dados, de todos os cuidados tomados.

Mas você não foi tão cuidadosa assim né? No final, já não teve tanta paciência, não cumpriu com o que foi avisado e brigou demais, na hora errada, por motivos que poderia ter relevado. A culpa é toda sua. Quem sabe da próxima vez você não é mais cuidadosa?

Enfim, não sei muito bem pra onde ir com esse texto, só sei que é um bom primeiro passo tomarmos consciência de tudo isso. Que é um peso enorme carregar a responsabilidade emocional de uma relação inteira nas costas. Que eu também tenho meus problemas pessoais, familiares e profissionais pra ficar estressada e sem paciência pra namoro. Mas mesmo com meus problemas pessoais, eu ainda preciso arranjar tempo pra reconquistar meu namorado, planejar formas de nos colocar numa "fase boa", manter a paixão, pensar com cuidado nas próximas discussões e criar o cenário mais agradável possível para todas as elas.

Espero que no futuro minha filha não tenha tanto medo de ficar sozinha.

Porque tudo isso é consequência do sexismo que enfrentamos no nosso dia a dia e nem sequer percebemos. Desde sempre e para sempre.

#everydaysexism


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DISCLAIMER: apesar desse texto conter muito da minha experiência pessoal, muito do que eu falei no "particular" são generalizações. Não é um desabafo exclusivo sobre minha relação de namoro atual e sim sobre todos os meus relacionamentos ao longo de todos os meus anos de vida. Sobre os relacionamentos das minhas amigas, das minhas primas, das minhas irmãs. Felizmente eu tenho um namorado que tem plena consciência do sexismo que eu enfrento e que está aberto a me ouvir sempre e fazer o possível para reverter essa situação.

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Mãe, você é abusiva.

26 dezembro 2015


Em tempos de discussão de relacionamentos abusivos, nós estamos ficando cada vez mais conscientes de quando nossos namorados ou namoradas estão sendo tóxicos para a nossa saúde mental. Continua sendo tão difícil quanto nunca romper um ciclo de abuso, mas o acesso à informação torna cada dia mais fácil identificarmos esse tipo de situação: o que é sempre o primeiro passo para interrompê-las.

O problema é identificarmos com clareza uma relação abusiva quando ela se esconde atrás de discursos normatizados de "educação", "instrução", "preocupação" - mas se manifesta na total falta de respeito da individualidade dos filhos e no abuso de autoridade, tendo consequências extremamente danosas para o nosso crescimento em um ambiente seguro.

Mãe, você é abusiva.

Não é saudável me comparar todos os dias com a minha prima/irmã/vizinha e chorar lamentações sobre "por quê você não pode ser mais como a Mariazinha?", porque eu não posso ser ninguém além de mim mesma. E quem eu sou não deveria ser causa de lamentação.

Não é saudável quando você me coloca pra baixo em toda a oportunidade que tem e expõe que a minha única salvação na vida é encontrar algum homem. E nem que "meu homem" seja minha única conquista decente na vida e que eu precise agradecer todos os dias por esse milagre e me cuidar para que ele não perca o interesse. 

"É por isso que você ainda está sozinha"; "se estivesse casada não estaria passando por dificuldade agora"; "se continuar descuidada desse jeito seu marido vai encontrar alguém mais bem cuidada rapidinho"; "com esse seu estilo esquisito você não vai encontrar nunca um homem que te queira"; "precisa casar com um homem que te cubra de porrada pra você aprender a ser mulher".

Mãe, você é abusiva.

Você é abusiva quando enxerga na minha vida uma extensão da sua e projeta em mim tudo aquilo que queria ter sido e não foi e tudo aquilo que queria ter feito e não fez. E se frustra toda vez que eu tomo um caminho diferente do que você queria tomar. Quando percebe que eu não tenho os mesmos gostos nem reproduzo os mesmos pensamentos que os seus e toma atitudes cada vez mais drásticas na tentativa desesperada de retomar o controle. Quando confunde dominação com instrução e não aceita apenas me dar orientações, mas precisa viver por mim e controlar cada detalhe da minha vida e cada escolha que eu preciso tomar. Que amigos ter. Por quem me apaixonar. O que estudar. Que função exercer. Que preferência política ter. O que fazer no meu tempo de lazer.

Você é abusiva quando faz com que eu me frustre por não conseguir corresponder às suas expectativas. E que eu lamente por ser a pessoa que eu sou, que eu me repreenda e tente me transformar em alguém que eu não queria ser. Que eu me odeie por isso. Me ache errada e me questione todos os dias: porque eu não posso simplesmente ser mais como a Mariazinha? Por quê eu sou esse monstro que causa tanto sofrimento na minha mãe?

Você é abusiva quando se utiliza de discursos maternais sobre como me ama e "só quer o meu melhor" para abusar do seu poder de mãe e revirar minhas gavetas, mexer no meu celular, olhar minhas mensagens, jogar minhas roupas fora, esconder meus batons. Dizer que eu estou horrorosa e vou passar vergonha saindo de casa daquele jeito, porque "é melhor ouvir da sua mãe do que de um desconhecido". Ou quando me faz sentir culpa por existir. Porque "eu não sirvo pra nada mesmo". Ou só existo pra te dar prejuízo. Fui um erro que você não compreende. A prova do seu fracasso. A concretização do alerta que todos te fizeram quando você optou por ser mãe solteira. "São todas putas" - eles disseram.

E, ah, as chantagens emocionais! Não podemos nos esquecer dos jogos psicológicos e das tentativas múltiplas de manipulação. Das lágrimas, dos choros e das ameaças.

"você não me ama"; "você só causa desgosto"; "você ainda vai me matar um dia"; "onde foi que eu falhei como mãe?"; "espero que um dia Deus me perdoe pela filha que eu criei"; "você não tem respeito por pai e mãe"; "é muito egoísmo da sua parte"; "porque você é tão ingrata?"; "não faz nada pela sua mãe"; "você não tem medo de ir pro inferno?"; "eu estou à ~isso aqui~ de não te considerar mais minha filha"; "lembre-se que você é sustentada por mim"; "enquanto viver nessa casa..."; "você não valoriza nada que eu faço por você"; "eu sacrifiquei minha vida toda por você e é assim que você me retribui?" "o que o resto da família vai fazer quando souber o tipo de pessoa que você realmente é?"; "não consigo olhar na cara das pessoas de tanta vergonha por ter uma filha como você"; "se eu morrer saiba que foi você quem me matou"; "e eu ainda faço questão de deixar uma carta por escrito dizendo que foi você, pra todo mundo ficar sabendo".

Tudo isso pra conseguir o controle de volta e me fazer tomar a decisão que você gostaria que eu tomasse. Não pense nem por um segundo que eu estou tendo que ouvir essas coisas porque cometi algum crime terrível. Eu não estou bebendo, me drogando, me prostituindo ou reprovando de ano: coisas que jamais poderiam ser possibilidades reais dentro desse nosso lindo universo familiar tradicional brasileiro.

É apenas porque eu não quis cursar Direito no vestibular. É porque eu quis raspar o cabelo. É porque eu não me sentia bem usando vestido no Natal. Ou depilando minha perna pra ir pra praia. É porque eu não me calei na mesa de jantar diante daquele tio sexista ou homofóbico. Porque eu não quis namorar com aquele garoto que você escolheu. Porque eu coloquei aquele piercing ou fiz aquela tatuagem.

Não é amor. Não é preocupação. Não é educação. Não é saudável. Não é o seu melhor. Não é pro meu  próprio bem.

É abuso.

EDITADO: Devido a pedidos, grupo criado no facebook para apoio às manas e os minos que sofrem de abuso dentro de casa: https://www.facebook.com/groups/1520483021582090/


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Vanessa. Paraibana, leonina, amante dos animais e de homens com cabelos compridos. Isso é basicamente tudo que você precisa saber sobre mim, o resto você descobre nas páginas do blog. ♥

 
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